Como no poker, All in.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Até que a verdade nos separe
Dia desses ouvi uma amiga dizer: "Aquela menina só pode ser idiota ou masoquista para acreditar no namorado que tem". Engraçado esse nosso costume de achar que é sempre por inocência ou idiotice que se acredita na história mais mal contada da história. Será que a "fulana" em questão nunca percebeu que ela é sempre única a ligar? Será que ela subtamente ficou cega no exato momento em que o namorado flertou com a gostosa da festa? Será que as mães de adolescentes fumantes teêm amnésia temporária para esquecer o isqueiro encontrado por acaso na mochila? Ou seria uma patologia olfativa que as impede de notar o cheiro delator inconfundível que o tabaco faz questão de deixar?
Não. Não é por burrice que se acredita em uma mentira. É por necessidade. Necessidade de proteger o peito, de esconder o coração do gatilho da decepção, necessidade de não perder a fé e aquele suspiro otimista que varre a tristeza diariamente no coração dos apaixonados. É por vontade sim, vontade de não deixar a comédia romântica virar dramalhão, vontade de acreditar que a Disney só mentiu no quesito "cavalo branco" quando prometeu um príncipe para cada gata borralheira. Vontade de viver o beijo apaixonado que sempre vem depois das brigas segundo Hollywood. Vontade de acreditar que o "felizes para sempre" dura mais do que uma ereção. É por medo também. Medo de inundar os olhos, de endurecer os gestos, de amargar a alma e secar o coração. Pavor de passar madrugadas em claro repassando mentalmente cada conversa em uma sádica busca por um motivo, um culpado, uma explicação ou outro entorpecente qualquer. É medo de ter que usar a raiva como morfina na tentativa estúpida de curar leucemia com veneno de rato.
Você pode se esconder atrás desse personagem desconfiado e bradar ao mundo seu desejo compulsivo pela verdade que jaz em seu bonito pedestal. Mas mesmo os amantes mais ciumentos, daqueles que vasculham bolsos, gavetas e celulares, mesmo aqueles que farejam perfumes baratos em golas de camisas que seriam brancas, não fossem as marcas de batom, todos nós, sem excessão, precisamos desesperadamente nos agarrar às mentiras alheias, sobre tudo à aquelas que maquiam uma verdade corrosiva. Afinal de contas, quem é que quer jogar ácido no coração? Aos desavisados é preciso deixar claro que esse texto não é uma apologia ao "me engana que eu gosto". Todo mundo sabe que ninguém gosta de ser enganado, mas o que nem todo mundo quer saber é que a dor, apesar de ser da mentira, só chega acompanhada pela verdade. A gente tenta evitar a verdade para não sofrer a mentira assim como uma criança tenta se proteger do escuro com um cobertor que só protege do frio. Por necessidade a gente acredita no amor e no cobertor, por necessidade e talvez só um pouco de idiotice é que a gente segura bem forte a mão da mentira e vive quase feliz até a verdade nos separe.
quinta-feira, 8 de março de 2012
A autoria materna
Você me deu a vida e isso bastava para que eu te respeitasse, no mínimo, como autora desse livro que eu chamo de vida. É, você me deu a vida, e às vezes parece que se esquece da doação, tentando viver por mim como se tudo não passasse de um empréstimo. Mas você me deu a vida, e o fez como quem dá a uma criança um brinquedo novo, me dizendo sempre para ignorar o manual de instruções.
Você me deu a vida depois de fabricá-la por nove meses no tempo em que o meu teto era o seu coração. Você foi minha casa e, vez em quando, continua sendo. Você publicou esse livro de 20 capítulos incompletos, que ainda não é quase nada se comparado ao seu best seller de 50 corajosos capítulos. Mas mesmo sabendo que não é grande coisa, me arrisco a dizer, que tudo que é, eu devo a você.
Feliz dia das mulheres à minha mãe e a todas as outras, sendo mães ou não.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Um encontro que a gente não marca.
Você conhece um novo cara. Ele se parece com aquele ator que você adora - com o nariz um pouco maior, é verdade, mas sorrindo daquele jeito, quem é que liga? - Ele faz você rir muitas vezes, mas é quando ele a faz chorar que você percebe o quanto ele mexe com você. Ele tem algumas manias irritantes e o dom de vez outra fazer exatamente aquilo que você mais detesta. Vocês vão ao cinema, discutem a relação, conversam sobre música, brigam por motivos banais, se beijam, sentem ciúme, brigam por motivos reais e fazem as pazes. Até que um dia, ele diz: “eu te amo!”. E Parabéns! Vocês foram promovidos, agora são um casal. Mas é geralmente aí, nesse ponto da história em que tudo parece estar completo, que uma interrogaçãozinha pula em você: “Isso é amor?”. E talvez você se pergunte onde estão os sinos que deveriam ter tocado, o pé que deveria ter subido durante o beijo, a mão que deveria ter suado, as pernas que deveriam estar tremendo, os suspiros que deveriam estar acontecendo, a música de fundo que não tocou e todas aquelas coisas que a televisão prometeu desde que você era criança. Será então que não é amor? Será uma carência, um comodismo qualquer? Será então que ele não é O cara, AQUELE que você e suas amigas sempre procuram nas noites de sábado, sob o velho pretexto de dançar e se divertir?
Você procura respostas na internet e lê alguns poemas que descrevem casais apaixonados para verificar seu grau de identificação. Pergunta a uma ou duas pessoas: “Como a gente sabe que está amando?” e provavelmente recebe uma resposta vaga, e aparentemente muito profunda, do tipo: “Você não sabe, apenas sente”. No auge do desespero, você recorre aos sobrenaturais testes de revistas femininas, que classificam seu namoro em ruim, regular e perfeito (vamos fingir que existe) com apenas cinco perguntinhas! Mas nenhuma resposta é capaz de satisfazer a sua inquietação, porque na verdade, o que você procura é uma divisão mais exata e intransponível do que o próprio muro de Berlim, separando o que é amor do que é “desamor”. Mas console-se, você não é a única criatura em busca do impossível. Na verdade, acho que todo mundo se questionou ao menos uma vez na vida: “Será que isso é amor?”. E às vezes é, ou não. Mas o fato é que ninguém até hoje conseguiu definir um sintoma único e universal capaz de diagnosticar os portadores da famosa “paixonite aguda”. É claro que existe uma cartilha de comportamentos típicos que povoam os filmes de Hollywood e as novelas da Rede Globo, como declarações de amor em público ou receber flores no trabalho. Mas nesses casos, é quase sempre a vida quem imita a arte, e não o contrário. Ou você acha que o seu namorado nasceu pensando em fazer aquela serenata?
Falando assim, pode até parecer que eu sou contra esse tipo de declaração, e não sou! Sou adepta, assim como a maioria das mortais, às manifestações apoteóticas de amor. Gosto de serenatas, de flores, de cartões românticos e me derreto mesmo ao som de “Por Você” do Frejat. Só não mande um fusca cor-de-rosa tocando “Como uma Deusa” na porta do meu trabalho, porque disso eu não gosto mesmo, e nem tento gostar. Mas o que realmente me incomoda não são as declarações clichês de amor, nem as cópias descaradas que alguns homens fazem dos filmes da moda para impressionar a namorada. Esse tipo de declaração pode sim estar demonstrando um grande amor. Só me aborrece perceber o quanto esse tipo de atitude é obrigatória para se declarar o amor. Um ser humano pode demonstrar de muitas formas que ama você, e nem todas incluem flores, discursos em público, ajoelhar-se no chão ou fazer uma serenata. Algumas incluem apenas silêncio. Ou você acha que é fácil ficar calado quando há um louca gritando que está de TPM? Se nem você se suporta nessa fase do mês, imagine o calvário mensal ao qual se submete seu amado.
Portanto, admita! A TV mentiu, Hollywood te enganou e os seus amigos estão tão perdidos quanto você. Ninguém sabe identificar o amor com precisão absoluta. E depois de tudo isso você deve estar se perguntando: então eu não devo mais buscar por respostas e apenas viver o momento? Não, essa é uma tarefa árdua até mesmo para o mais elevado monge do Tibet. Você vai continuar com as dúvidas, e talvez nunca possa bater no peito e dizer que tem certeza, é amor! Mas não se preocupe, o amor é mesmo essa eterna inquietação, e diferente do que pensa a maioria das pessoas, o amor vem para incomodar, desconcertar, desestabilizar, arder! O amor despreza os sentimentos mornos e vem para nos tirar da velha zona de conforto, o amor vem nos colocar na lona e no pedestal simultaneamente, vem para nos levar a nocaute, vem para nos lixar. Então, na próxima vez em que você for promovida a casal, deixe as dúvidas chegarem. Deixe o coração ferver e estômago congelar com aquele friozinho na barriga que torna tudo mais emocionante. Assim, você vai perceber que não adianta estar cercada de certezas se, no fim das contas, o amor é um encontro que a gente não marca.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
A boca arisca.
E o mauricinho arrogante que se gabava de ser
O garanhão da estação a cumprir seu dever
De beijar todas as bocas que o olho pode avistar
Sem gravar sequer o gosto de cada boca que beijar
Um dia esbarrou numa boca arisca e indiferente
Que tinha ogeriza da atitude dessa gente
Que tinha ogeriza da atitude dessa gente
Que coleciona corações empoeirados na estante
Daquelas que um dia o chamaram de amante.
(continua)
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Ajude uma Letrista.
Queridos e queridas, hoje estou aqui para pedir um enorme favor a vocês que já tanto me ajudam! Ocorre que, se tudo acontecer conforme o planejado, meu quarto entrará em reforma, assim como o resto da casa. E como nova pintura ambiente, eu gostaria de colocar um texto ou poema meu em alguma das paredes do meu novo habitat. Entratanto, porém, todavia, penso ser impossível decidir sozinha qual seria o texto ou poema eleito, uma vez que como boa mãe, amo todos os meus filhos quase que igualmente. Por isso é que peço encarecidamente a vocês, que me ajudem a encontrar as linhas que preencherão o branco vazio das minhas paredes.
Sugestões podem ser enviadas por comentários, ou para os mais tímidos: claudiagodoybraz@hotmail.com.
Muitissimo obrigada, como sempre! Cláudia.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Jogo de perder você
Vez ou outra, eu acabo encontrando algum poema perdido nas minhas gavetas. Os versos de hoje foram escritos durante uma aula de matetmática no primeiro semestre de 2008. É sempre bom esbarrar num tipo de passado que vem para mostrar o quanto a gente amadureceu.
Eu não tenho medo de careta
Nem vou sair correndo se você gritar
Já perdi a vocação para Julieta
Não preciso de um robô para controlar
As asperezas do seu temperamento
São arestas que eu sei aparar
Sua fobia por qualquer envolvimento
É menor que a minha mania de teimar
Não quero mais mentir para nós
Nunca foi sobre ganhar ou perder
Eu discuto até quase perder a voz
Mas nunca quis vencer você
É o meu disfarce, minhas desculpas
A verdade eu sei que você sabe
É só camuflagem pra esconder
O que não coube e ainda não cabe
Tentei ser tranquila e até moderna
Mas ninguém moderniza um coração
Escolhi ficar numa sangria eterna
Para não domesticar minha emoção
Não sei brincar de revezar
Não quero e nem vou aprender
Não tente me ensinar jogar
Esse jogo de perder você.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Se eu pudesse poder
Ah se eu pudesse domar
Meu coração deliquente
Que sente, e que mente
Não sentir, e não amar
Ah se eu pudesse curar
Esse corpo desobediente
Que se põe quase doente
Sem ter onde encostar
Ah se eu pudesse mudar
A paixão marginal que ofereço
Ah se eu soubesse mostrar
Qualquer outra forma de apreço
Ah se eu soubesse saber
Outra forma de ser
Diferente daquilo que sou
Ah se eu pudesse poder
Mas poder eu não posso
E não por isso, não vou.
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